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Mitchel Resnick: “As crianças precisam desenvolver o pensamento criativo” [VI Jornada de Educação Infantil]

O professor do MIT explicou a importância do pensamento criativo em todas as fases da vida na VI Jornada de Educação Infantil. Confira entrevista exclusiva

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Tempo de leitura: 6 min
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O pensamento criativo é essencial para um mundo de mudanças aceleradas. E é papel das escolas ajudar as crianças a desenvolvê-lo.

Essa foi a principal lição da participação do pesquisador e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Mitchel Resnick, na VI Jornada de Educação Infantil. O evento online foi realizado em 3 de outubro pelo Observatório da Cultura Infantil (OBECI), em parceria com a Pós Educação Unisinos.

A jornada teve curadoria e mediação do pesquisador e formador do Instituto para Inovação em Educação da Unisinos, Paulo Fochi, com o apoio da jornalista Débora Bresciani. Foram apresentados os cases das escolas Ateliê Carambola e Thema Educando, além de mesas redondas com os convidados.

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Mitchel Resnick concedeu uma entrevista exclusiva para Paulo Fochi sobre as principais ideias do livro “Jardim de infância para a vida toda” (Penso, 2020). Uma das formas apresentadas pelo pesquisador para desenvolver o pensamento criativo foi o Scratch, linguagem de programação criada pelo MIT voltada para crianças.

Confira como foi a conversa entre Resnick e Fochi. As perguntas e respostas foram adaptadas para dar mais clareza à leitura.

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Paulo Fochi: No seu livro “Jardim de infância para a vida toda”, você defende a ideia de que a tradição do modelo pedagógico que existe na Educação Infantil desde Froebel pode ser uma ótima referência para as outras etapas de ensino, incluindo o Ensino Superior. Poderia nos contar um pouco mais sobre isso?

Mitchel Resnick: Eu sempre fui inspirado pela forma com que as crianças aprendem na Educação Infantil. Se você pensar no Jardim de Infância tradicional, as crianças criam alegremente coisas em colaboração umas com as outras. Nesse processo, elas aprendem muito quando, por exemplo, constroem uma torre ou um castelo, como noções de estrutura e estabilidade. Com a pintura a dedo, elas aprendem como as cores se misturam.

"As crianças aprendem sobre o processo criativo: como começar uma ideia, criar algo baseado nela, compartilhá-la com os outros, testá-la para ver como funciona e revisá-la com base nos experimentos e nas interações com os colegas. Elas continuamente refinam suas ideias. Isso está no centro do processo criativo, que é tão importante no mundo de hoje."

Infelizmente, depois do Jardim de Infância, meninas e meninos vão para a escola, sentam-se em filas, assistem a aulas e preenchem cadernos. Eles aprendem algumas coisas com essas atividades, mas não se desenvolvem como pensadores criativos. Isso não os ajuda a se preparar para as necessidades do mundo complexo e de mudanças rápidos em que vivemos.

No livro “Jardim de Infância para a vida toda”, eu defendo que nós deveríamos aprender com essa abordagem do Jardim de Infância e estendê-la para estudantes de todas as idades. Assim garantimos que todos, à medida que crescem, tenham a chance de se desenvolver como um pensador criativo e estejam prontos para contribuir com a sociedade.

Paulo Fochi: Você fala também sobre alguns mitos sobre a criatividade. Um deles é que ela está restrita aos campos artísticos, outro é que é um privilégio de poucas pessoas. Como você compreende a criatividade em relação à ludicidade e às brincadeiras?

Mitchel Resnick: O pensamento criativo é importante para todos. Em um mundo de mudanças aceleradas, as crianças vão enfrentar um fluxo interminável de situações desconhecidas, incertas e imprevisíveis à medida que crescem. A necessidade de se pensar criativamente se torna ainda mais importante.

Apesar disso, muitas das estruturas educacionais que estabelecemos no mundo não são projetadas para apoiar as crianças nesse sentido. Como podemos ajudá-las a se desenvolverem dessa maneira?

Há quem acredite que o pensamento criativo é útil apenas para um grupo limitado de pessoas ou que seja válido só para a expressão artística ou para líderes de uma área. Mas ele é importante tanto para nossas vidas profissionais quanto para o nosso dia a dia.

Em uma economia em processo de mudança, um número cada vez maior de empregos será baseado na capacidade de pensar criativamente. Há cem anos, quando as pessoas saíam da escola, elas iam trabalhar em uma linha de montagem, fazendo a mesma atividade repetidamente.

Hoje as máquinas realizam muitas dessas tarefas rotineiras. Isso pode ser um problema, mas de certa forma liberta os seres humanos para se dedicaram ao que fazem de melhor, além de realizarem atividades mais satisfatórias. Haverá uma maior necessidade no mercado de trabalho de pessoas que sejam capazes de pensar criativamente. Isso também acontecerá em nossa vida cotidiana.

Paulo Fochi e Mitchel Resnick na VI Jornada de Educação InfantilPaulo Fochi e Mitchel Resnick na VI Jornada de Educação Infantil

Paulo Fochi: Você menciona a comunidade Scratch, que, além de ser um espaço virtual para aprender programação, é uma das formas de desenvolver essa aprendizagem criativa. Por que o Scratch é importante em relação à tecnologia e infância?

Mitchel Resnick: Se quisermos ajudar as crianças a se desenvolverem como pensadores criativos, precisamos dar a elas oportunidades para criar. A tecnologia tem um grande potencial de expandir o alcance do que as pessoas podem criar e do que podem aprender nesse processo. Com o computador, elas podem criar coisas dinâmicas, interativas e que se movem, fazer suas próprias animações, simulações e vídeos.

A tecnologia não substitui outras formas de criação. É maravilhoso que as crianças possam pintar brincar com blocos, mas a tecnologia dá para elas uma maior gama de oportunidades de aprendizagem.

"Infelizmente, muitas das novas tecnologias não são usadas para isso. Geralmente elas entram na vida de meninas e meninos para dar instruções ou oferecer entretenimento. É a tecnologia que está no controle para entregar algo para a criança. Nós queremos colocar a criança no comando da tecnologia para que elas criem coisas e se expressem. Nós vemos a tecnologia mais como um pincel para criar algo novo do que uma televisão que manda informações."

Paulo Fochi: Há uma certa apreensão sobre tanta tecnologia na primeira infância. Você também tem essa preocupação?

Mitchel Resnick: Em vez de pensar em como minimizar o tempo de tela ou o tempo de tecnologia, o mais importante é pensar em como maximizar o tempo de criatividade. É preciso ter a certeza de que as crianças passem o máximo de tempo possível criando. Se elas estão usando a tecnologia para criar, então está tudo bem. O foco é em como elas usam a tecnologia, como parte de um conjunto de atividades criativas.

Paulo Fochi: Você pode compartilhar conosco um exemplo de tempo de criatividade na comunidade Scratch?

Mitchel Resnick: Uma garota da África do Sul criou um projeto chamado “A Divisão Colorida”, feito em colaboração com crianças de outros países. Era uma história animada sobre uma cidade fictícia onde as crianças cresciam com poderes mágicos. As cores eram atribuídas de acordo com a quantidade de poder mágico que cada uma delas tinha, como se fossem diferentes níveis de uma sociedade.

Para essa menina, essa história foi uma forma de refletir sobre os desafios do sistema de Apartheid na África do Sul. Ela viu esses problemas em nossa sociedade e foi capaz de trabalhá-los neste projeto com outras crianças.

Era uma história animada, então ela aprendeu habilidades técnicas de programação. O mais importante foi que ela aprendeu a colaborar e a compartilhar suas ideias com outros, além de pensar em questões relevantes para a comunidade dela.

Esse é o nosso objetivo com o Scratch: não apenas aprender habilidades técnicas, mas ajudar os jovens a desenvolverem seu pensamento, sua voz, sua identidade e seus interesses. Esperamos criar ferramentas que permitam meninas e meninos a fazer todas essas coisas.

Paulo Fochi: Quais seriam suas boas perguntas para a educação desta época?

Mitchel Resnick: A questão fundamental é: qual é o propósito da educação? Não vamos conseguir chegar a um acordo sobre como organizar um sistema de educação a menos que concordemos sobre os objetivos.

Para algumas pessoas, a educação é projetada para formar uma força de trabalho para a sociedade industrial. Não acho que essa seja a meta certa para o mundo de hoje.

"A educação deve ajudar as pessoas a se desenvolverem como pensadores criativos e a se expressarem, para assim serem membros produtivos de suas comunidades. Se concordarmos com esse objetivo, será mais fácil estabelecermos um plano para atingi-lo."

Queria que tivessem pensado nesse objetivo cem anos atrás, pois é uma maneira de tratar as crianças com respeito, de ajudá-las a desenvolverem seus interesses, suas ideias e suas vozes. É a forma como todas as pessoas deveriam ser tratadas, ainda mais no mundo de hoje.

Assista à entrevista completa com Mitchel Hesnick

O pensamento criativo no livro “Jardim de infância para a vida toda”

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O livro de Mitchel Resnick reúne as lições de projetos como os kits de robótica da LEGO, o Scratch e a rede Clubhouse Network para demonstrar como os sistemas de ensino podem investir no pensamento criativo.

Resnick também sugere 4 princípios que as escolas deveriam seguir para ajudar os jovens a serem pensadores criativos:

  1. Projetos
  2. Paixão
  3. Pares
  4. Pensar brincando

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Sobre a VI Jornada de Educação Infantil

Realizada em 3 de outubro de 2022, a VI Jornada de Educação Infantil reuniu educadores de prestígio nacional e internacional para debater sobre a importância da criatividade, da arte e das boas perguntas na educação.

O evento foi realizado em parceria entre o Observatório da Cultura Infantil (OBECI) e a Pós Educação Unisinos, com curadoria do Profº Drº Paulo Fochi.

A VI Jornada de Educação Digital foi 100% online e gratuita. Confira as principais ideias e cases discutidos no evento:

>>> A importância das boas perguntas para o protagonismo infantil

>>> O papel do atelierista na Educação Infantil, segundo Mara Davoli

>>> O que podemos aprender com a escola Ateliê Carambola

>>> O que podemos aprender com a escola Thema Educando

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Sobre o autor

Olívia Baldissera

Jornalista e historiadora. Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem mais de dez anos de experiência em produção de conteúdo.

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